sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O mito do Amor

“ Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses, e entre os demais se encontrava também o filho de Prudência, o deus Recurso. Depois que acabaram de janta, veio para esmolar do festim a deusa Pobreza, e ficou pela porta. Ora, Recurso, embriagado com o néctar - pois vinho ainda não existia - penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando em sua carência ter um filho de Recurso, deita-se ao seu lado, e

pronto, concebe o Amor. Eis porque o Amor ficou companheiro de Afrodite, pois nasceram no mesmo dia, e desse modo o Amor é por natureza amante do belo, porque Afrodite é bela. E também por ser o Amor filho de Recurso e de Pobreza foi esta dupla condição que herdou. Primeiramente, ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria das pessoas imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar sempre por terra sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a necessidade. Segundo o pai, porém, ele é astuto e deseja o que é belo e bom, é corajoso, decido e energético, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista. E nem imortal é a sua natureza mortal, e assim ora ele germina e vive, quando enriquecer; ora morre e de novo ressuscita, graças à natureza do pai; e o que consegue sempre lhe escapa, segundo a natureza a mãe, de modo que o Amor nem empobrece nem enriquecer, assim como também está no meio da sabedoria e da ignorância. Eis o que se ocorre. Nenhum deus filosofa o deseja ser sábio, pois já é. E aquele que é sábio não filosofa, pois já tem a sabedoria. E nem os ignorantes filosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o difícil da ignorância: em pensar – quem não e um homem distinto e gentil, nem inteligente- que lhe basta assim. Não deseja algo, portanto, quem não imagina ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso.

- Quais então, Diotima - perguntou Sócrates -, são os que filosofam, se não são nem sábios nem ignorantes?

- É o que é evidente desde já- respondeu ela - até a uma criança: são os que estão entre esses dois extremos, e um deles seria o Amor. Com efeito, uma das coisas mais belas é a sabedoria, e o Amor é amor pelo belo, de modo que é forçoso o Amor ser filósofo e, sendo filósofo estar entre o sábio e o ignorante. E a causa dessa sua condição é sua origem: pois é filho e um pai sábio e rico e de uma mãe que não é sabia, e pobre. “


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